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Artigo - Lula e o debate democrático

Lula resolveu ouvir pessoas, não necessariamente do PT, para ouvir uma avaliação do seu governo. Foi um encontro de bons resultados

 

Por Arnaldo Niskier

 

Triste o presidente da República que se refugia nos palácios de Brasília e deixa de ouvir o clamor popular e a opinião dos intelectuais. Luiz Inácio Lula da Silva, que não perdeu a humildade de simples operário do ABC, resolveu ouvir pessoas, não necessariamente do PT, para conhecer a avaliação que se faz do seu governo, ainda quando faltam dois anos e meio para o seu final.

 

Houve uma reunião em São Paulo e outra no Rio, esta na sede do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), com a presença de 47 especialistas de diversas áreas.

 

Sob a coordenação do ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos), houve 14 intervenções, durante cerca de três horas, ouvidas por Lula e alguns de seus ministros, que, depois, também usaram a palavra, como aconteceu com Dilma Rousseff (Casa Civil) e Fernando Haddad (Educação). Ao final, o presidente falou sobre as questões levantadas, discorrendo sobre todas elas com grande propriedade e de improviso.

 

O tema dominante foi educação -nem poderia deixar de ser, pois estavam presentes quatro reitores de universidades públicas e particulares.

 

Abordagens feitas: a necessidade de reformar a lei da educação, cheia de remendos que lhe tiram a organicidade; o incentivo à leitura dos jovens (proposta de Oscar Niemeyer, presente ao encontro); a ampliação de vagas nas universidades; a formação de professores em nível superior; a criação de novas escolas técnicas em municípios brasileiros; e a política de cotas, questionada pelo reitor Ricardo Vieiralves (Uerj -Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

 

Segundo Vieiralves, a sua universidade foi a primeira do país a abrir as portas para a iniciativa, há seis anos, quando houve 1.400 candidatos que se consideraram afrodescendentes; neste ano, somente 380 procuraram a Uerj, num declínio que merece uma ampla reflexão.

 

Na reunião, propusemos a revisão da Lei Rouanet (de incentivo à cultura), excessivamente burocratizada, a ênfase da TV Brasil na produção de programas vinculados às políticas nacionais de educação e cultura e o incentivo para que bolsistas do ProUni (Programa Universidade para Todos) atuem em projetos culturais de comunidades carentes, além do treinamento de professores para o uso adequado dos milhões de livros didáticos que são distribuídos anualmente pelo MEC (Ministério da Educação). Com a sugestão do aperfeiçoamento do seu conteúdo, que deve refletir cada vez mais a nossa proclamada diversidade cultural.

 

O presidente Lula foi elogiado pelo feliz desfecho em relação à queda de braço com o Sistema S. O acordo foi considerado "um bom resultado" para a valorização do ensino profissional, ampliando em muito as suas vagas gratuitas.

 

Foi proclamado o avanço das políticas sociais e assinalada a frase talvez mais forte do discurso de Lula: "Quero, ao final do meu mandato, que o povo brasileiro tenha o direito de comer mais e melhor".

 

É natural que os temas tenham sido variados. Quando se falou em Doha, o presidente fez questão de defender entusiasticamente o chanceler Celso Amorim: "Nunca tivemos melhor ministro das Relações Exteriores!".

 

Depois, ouviu a confissão de um sociólogo: "Com a inflação, conheço uma senhora que comprava diariamente cinco pães e hoje só consegue adquirir três com o mesmo dinheiro".

 

Lula foi anotando todas as observações e insistiu muito, ao final, que deixará o governo nas mãos do sucessor numa situação bem mais favorável.

 

Alguém perguntou se ele estaria se referindo indiretamente à ministra Dilma Rousseff. Ambos se limitaram a sorrir.

 

Sugeriu-se um PAC somente para as universidades, e o ministro Haddad falou das 40 ações desenvolvidas pelo MEC nos vários setores do seu ministério. Foi cobrada do governo a assinatura urgente da implementação do acordo ortográfico (o que deverá ser feito no dia 29 de setembro deste ano, na Academia Brasileira de Letras), e a ministra Dilma, além de dar boas notícias sobre o nosso potencial energético, defendeu um grande programa governamental de transferência de renda.

 

Um encontro de bons resultados.

 

Arnaldo Niskier , 72, é professor de história e filosofia da educação, membro da Academia Brasileira de Letras e presidente do CIEE-RJ (Centro de Integração Empresa Escola do Rio de Janeiro).

 

(Folha de S. Paulo, 6/8/2008)


Data: 20/08/2008